Muitas mulheres chegam ao consultório carregando um medo profundo dos hormônios. Esse medo tem uma história concreta, com data de início e consequências bem documentadas — e entendê-la é o primeiro passo para tomar decisões mais informadas sobre a própria saúde.
Um estudo, uma manchete, duas décadas de consequências
Em julho de 2002, o Women's Health Initiative (WHI), um grande ensaio clínico americano conduzido pelo National Institutes of Health, foi interrompido antes do prazo previsto. Os resultados, publicados no JAMA, apontavam para aumento do risco de câncer de mama e eventos cardiovasculares em mulheres que usavam terapia hormonal combinada. A repercussão foi imediata e global: prescrições despencaram, mulheres abandonaram tratamentos em andamento e uma geração de médicos passou a evitar o tema com uma cautela que, em muitos casos, perdura até hoje.
O que ficou fora das manchetes merece atenção. As participantes do estudo tinham em média 63 anos — bem além da faixa etária em que a terapia hormonal costuma ser indicada. Apenas 12% tinham entre 50 e 54 anos. A maioria já apresentava algum grau de comprometimento cardiovascular prévio. Além disso, o esquema hormonal utilizado — estrogênio equino conjugado oral combinado com acetato de medroxiprogesterona sintética — não representa os protocolos prescritos atualmente.
Análises posteriores dos próprios dados do WHI mostraram resultados significativamente diferentes quando os grupos foram estratificados por idade e tempo desde a menopausa. Em mulheres entre 50 e 59 anos, a terapia hormonal esteve associada à redução da mortalidade geral. A revisão publicada em 2023 na revista ScienceDirect concluiu que a generalização dos resultados originais foi inadequada e gerou dano real ao privar pacientes de tratamento eficaz.
O que os consensos de 2024 estabelecem
Em maio de 2024, a SOBRAC, em parceria com a FEBRASGO, publicou o Consenso Brasileiro de Terapêutica Hormonal do Climatério 2024. A mensagem central é inequívoca: a terapia hormonal continua sendo o tratamento mais eficaz para os sintomas vasomotores da menopausa, e seus benefícios superam significativamente os riscos para a grande maioria das mulheres com indicação clínica. O consenso reafirma que não há como definir um tempo máximo de uso nem uma idade limite — cada caso deve ser reavaliado individualmente.
A chamada janela de oportunidade — até 10 anos após a menopausa, ou antes dos 60 anos — é o momento em que os benefícios cardiovasculares são mais consistentes. Iniciada dentro dessa janela, em mulheres saudáveis e sem contraindicações, a terapia hormonal tem efeito protetor sobre o sistema cardiovascular, que é a principal causa de morte em mulheres.
O que a terapia hormonal trata — e o que mais pode oferecer
As quatro indicações com maior nível de evidência são o tratamento dos sintomas vasomotores (fogachos, suores noturnos), o manejo da síndrome geniturinária da menopausa, a prevenção e o tratamento da perda de massa óssea, e o cuidado da mulher com menopausa precoce. O consenso de 2024 reconhece ainda benefícios adicionais: redução do risco de diabetes tipo 2, melhora do sono e dos sintomas depressivos, proteção cardiovascular dentro da janela de oportunidade, redução do risco de câncer colorretal e evidências promissoras de proteção contra a doença de Alzheimer.
Via de administração: uma escolha com consequências clínicas
O consenso atual orienta que, sempre que possível, a terapia estrogênica sistêmica seja feita por via não oral — gel transdérmico ou adesivo. A via transdérmica evita o metabolismo hepático de primeira passagem, o que se traduz em menor risco de tromboembolismo venoso em comparação com a via oral. Para as mulheres cujos sintomas são predominantemente genitourinários, o estrogênio vaginal de baixa dose é a opção de escolha, com absorção sistêmica mínima.
A questão do câncer de mama
O consenso de 2024 mantém a contraindicação formal da terapia hormonal sistêmica para mulheres com histórico pessoal de câncer de mama. Mas o documento é preciso ao explicar que essa contraindicação se baseia principalmente na ausência de evidências de segurança suficientes — não na existência de um risco claramente estabelecido para os esquemas atuais. Quando se analisa o risco em termos absolutos, o aumento associado ao uso de terapia combinada é pequeno e comparável ao atribuído ao consumo regular de álcool ou ao sedentarismo.
O custo do subtratamento
Uma parte relevante das mulheres que poderiam se beneficiar da terapia hormonal ainda não recebe o tratamento. Permanecer sem tratamento tem consequências concretas: maior risco cardiovascular, perda óssea progressiva, prejuízo ao sono, ao humor e à função cognitiva. A terapia hormonal é recomendada para quase todas as mulheres com sintomas da menopausa — essa é a posição do Consenso SOBRAC/FEBRASGO 2024.
Na Clínica Khera, a avaliação para terapia hormonal é conduzida pela Dra. Karen Abrão com base nas evidências mais atuais — com tempo real de consulta para entender sua história e construir um plano verdadeiramente individualizado.